Anúncios que roubam sua atenção por nada em troca

Sabemos muito bem que costumamos pagar por coisas de formas diferentes ao convencional. É comum pagar pelas coisas com informação, e mais frequentemente, com nosso tempo e atenção. Nós frequentemente entregamos o acesso às nossas mentes de maneira gratuita, como nas nossas caixas de e-mail, no Facebook ou nos jogos de futebol que passam na TV. Ao contrário de “pagar” a atenção, nós na verdade “gastamos nossa atenção” ao concordar com a exibição de anúncios em troca de algo que realmente queremos.

O ponto principal desse acordo em nossas vidas se torna escandaloso quando percebemos que existem empresas que se aproveitam de nosso tempo e atenção por nada em troca, e mais; sem o consentimento de todos – o que também pode ser considerado um “roubo de atenção”. Como aquelas TV que existem na conveniência de alguns postos de gasolina por exemplo, que a todo momento nos impactam com publicidade e conteúdo. Não há escapatória, como diz o David Leider, CEO da Gas Station TV nos EUA: “Nós gostamos de dizer que você está amarrado a essa tela com uma mangueira de borracha de 2 metros por cerca de cinco minutos”. É de fato uma invenção que sozinha pode ter criado um novo case para carros elétricos.

Roubo de atenção acontece em qualquer lugar e momento que você perceber seu tempo e atenção sendo aproveitados sem o seu consentimento. Os exemplos mais notórios são encontrados onde, assim como no posto de gasolina, somos o público-alvo. Os casos mais comuns de publicidade direcionada são: em salas de hospitais (que transmite conteúdos como “The Newborn Channel” para futuros ou recentes pais); Linhas aéreas que aumentam o volume quando anunciam coisas diretamente na tela que está na sua frente; TVs dentro de elevadores de prédios comerciais ou até mesmo as telas que já encontramos dentro dos taxis. Estas são apenas algumas das situações, e é algo que só cresce com o passar dos anos. Combinadas, elas ameaçam nos fazer viver a vida dentro de um casulo forrado com televisores, mas que nos deixa mais como larvas do que como borboletas, encolhidas e incapazes de nos fazer pensar de forma independente.

O que torna isso um “roubo”? O avanço da neurociência nas últimas décadas deixa claro que os recursos do nosso cérebro são involuntariamente desencadeados pelo som e movimento, o que faz com que esses televisores consigam literalmente aproveitar ao máximo os nossos recursos mentais. Como citam o neurocientista Adam Gazzaley e o psicólogo Larry Rosen em seu livro, The Disctracted Mind, os humanos têm uma “extrema sensibilidade à interferência de distrações por informações irrelevantes”. Enquanto isso, na lei, o roubo ou furto é definido como tomar o controle de um recurso “sob a circunstância de ter adquirido a maior parte econômica ou benefício”. Sendo estabelecido um valor de mercado para tempo e atenção, quando tomado sem consentimento ou compensação, realmente não é muito diferente de alguém ter simplesmente tirado dinheiro do seu bolso. Assim, quando as empresas que vendem publicidade nesses televisores públicos e direcionado para um público específico, e se vangloriam por ter crescido 2 dígitos e bilhões em receita, elas estão na verdade roubando de nós.

Como já deu para perceber, a palavra-chave aqui é “consentimento”. Há uma grande diferença entre folhear uma revista, ler artigos e propaganda por escolha própria, e, ser impactado por um televisor quando você não tem mais para onde ir. O consentimento é a forma usual de condicionamento do acesso ao corpo. O cérebro é uma parte muito íntima do nosso corpo, do qual se deve pedir permissão antes de ter suas sinapses acessadas por um estranho.

É fácil de considerar que esses casos de roubo de atenção são simples aborrecimentos, que há coisas muito mais importantes para se preocupar. Mas considerando uma vida com um “bombardeio” de estímulos visuais, esses momentos importam muito. As vezes algumas coisas importam muito mais do que aqueles minutos desejados de silêncio. A questão mais importante é o efeito que causa todas essas inserções na nossa saúde e principalmente em um de nossos direitos mais importantes, a autonomia.

Por um lado, os efeitos sobre a saúde mental relacionados a constante apreensão de nossa atenção estão apenas começando a ser entendidos. Gazzaley e Rosen destacam que vivemos em um ambiente tecnológico que nos encoraja a estar constantemente alternando por entre os estímulos. No entanto, como eles descrevem, essa mudança tem um custo. A mudança constante “degrada nossas percepções, influencia nossa linguagem, dificulta a tomada de decisões efetiva e descaracteriza nossa capacidade de capturar e lembrar de memórias detalhadas de eventos da vida. O impacto negativo é ainda maior para aqueles com controle cognitivo subdesenvolvido ou prejudicado, como crianças, adolescentes e adultos mais velhos, assim como muitas populações clínicas”.

Mas é igualmente importante o que o roubo de atenção faz com o que nós gostamos de chamar de livre arbítrio. A liberdade de pensamento é supostamente um valor constitucional, um alicerce de uma sociedade livre, mas, permitimos que seja superado regularmente. Como disse Charles Black, um estudioso da Constituição: “Eu temo pela sanidade de uma sociedade que fala, ao nível do princípio abstrato, da preciosa integridade da mente individual e, ao mesmo tempo, no nível do fato concreto, força a mente individual a gastar boa parte de cada dia sob o bombardeio de qualquer coisa que um monte de promotores de publicidade queiram jogar sob ela”.

Podemos fazer alguma coisa? Uma opção é boicotar empresas que praticam roubo de atenção. No entanto, como isso acontece em situações que não podemos evitar, isso pode não ser uma tarefa muito prática. (Não é muito fácil boicotar um hospital, por exemplo). Outra opção seria que os municípios atualizem suas leis que governam os danos públicos para proibir o uso de televisões com publicidade direcionada em espaços públicos. De qualquer maneira, esse é um problema que enfrentamos a muito tempo. Na década de 1940, as cidades proibiram barulhentos caminhões publicitários com alto-falantes, o caso contra televisões de publicidade é basicamente o mesmo. É uma coisa que podemos fazer para tornar essa era de bombardeio de informação um pouco mais suportável.

 

Originalmente publicado em: Wired